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  • Luciane Rodrigues

Cuide-se!

Sempre tive o instinto materno aflorado: na infância, gostava de cuidar das crianças menores. Dos bichos de estimação. Cresci e passei a ser o suporte das amigas. Dos namorados. Até virar mãe. E passar a cuidar também dos meus filhos.

Minha trajetória de “cuidar do outro” passa também pelo meu lado profissional. Lembro-me de um chefe antigo que dizia: “você carrega o mundo nas costas”. Sou nerd. Daquelas que executam várias tarefas ao mesmo tempo, levam trabalho pra casa e controlam todas as etapas de um projeto até entregar algo, no mínimo, impecável.

Eu falei controlar? Ah, sim! O verbo que me legitima. Sou também uma pessoa controladora. Tá aí que por trás da aparência doce e meiga tem uma mamma italiana enrustida em mim. Uma mulher-polvo que acha que tudo tem que ser do jeito dela e que precisa cuidar de tudo e de todos.

Mas sabe o que eu descobri nos últimos tempos? O instinto materno é uma mentira. Saca a tal frase célebre da feminista francesa Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”. Isso significa que as mulheres não nascem mais aptas para cuidar. Elas são CONDICIONADAS a isso desde a infância. Esse é o meu caso e o de muitas mulheres por aí.

Se livrar desse condicionamento e encontrar um equilíbrio nas relações é muito difícil. Ainda mais quando a gente vira mãe e a palavra CUIDAR ganha um novo significado.

Quando eu era mais nova, achava que minha mãe e minhas tias eram “cuidadoras natas”. Nenhuma delas trabalhou fora depois que os filhos nasceram. Passaram a dedicar-se somente a eles, ao marido e a casa. Um padrão que foi repetido pela maioria das famílias nos anos oitenta, época em que vivi a minha infância.

Mulheres que eram ensinadas a seguir esse padrão pelas mães, que tinham sido treinadas pelas mais velhas e isso vai embora geração adentro... Mas naquele tempo, mesmo atoladas pelas tarefas do lar, várias delas contavam com uma rede de apoio generosa: avós, tias, vizinhas, irmãs. Elas viviam próximas umas das outras e se ajudavam.

Hoje, a maioria das mães dos grandes centros urbanos tem algo em comum: são mulheres que precisam se virar nos trinta. E sozinhas. Criam os filhos, organizam a casa, trabalham fora. Muitas sem dividir essa carga pesada com o parceiro. Ou com pouca colaboração da família.

E sabe o que acontece com essas mães? Elas SE ESQUECEM no meio desse turbilhão que é a maternidade. Foram condicionadas a cuidar, mas também a serem independentes e perfeitas. Ou seja: as coisas pioraram muito para as mães nas últimas décadas!

A gente tem que se conscientizar que essa maternidade atual é rígida demais.

Quem cuida, também precisa de cuidado. É como a máscara de oxigênio do avião colocada antes de ajudar quem está ao lado. Para salvar alguém, é preciso se salvar antes.

Por isso, tento me lembrar, todos os dias, da importância do autocuidado.

Quem tem criança pequena em casa sabe que nem sempre é fácil deixar as coisas mais leves. Mas a gente precisa dar um jeito. Para mim, caminhada, yoga e uma taça de vinho fazem milagre.

A maternidade é entrega cega. É se jogar por amor. É fazer, cuidar. E não esperar nada em troca.

A gente se doa, mas para que isso flua, é preciso estar feliz.

Cuide-se!

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