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  • Luciane Rodrigues

Para dona Cida, com amor

Hoje vou falar um pouco da minha mãe. Eu a perdi há quase cinco anos. Confesso que a ferida ainda está aberta. Mas chegou a hora de começar a tratá-la. E falar sobre isso é um grande passo pra mim.

Ah, a dona Cida!

A dona Cida era uma mulher sensível, criativa e temperamental. Baixinha, falsa magra e espevitada. Adorava crianças, plantas e culinária. Não gostava de noticiários policiais, lamentava a maldade humana, sofria com a pobreza e o sofrimento dos outros.

Justamente ela, uma mulher semianalfabeta que sofreu muito nessa vida. O rosto flácido e cheio de rugas denunciava sua dor. Ela tinha feito escolhas da qual se arrependia, numa época em que as mulheres não tinham muitas escolhas.

Minha mãe deixou sempre a vontade dela em segundo lugar pelos outros. Assumiu cedo o papel de MÃE dos irmãos, dos sobrinhos e mais tarde do marido e das filhas. Não viveu os papéis de MENINA, de SONHADORA, de GUERREIRA.

A dona Cida era simplesmente MÃE. E morria de medo que eu e minha irmã fizéssemos a mesma coisa. Por isso, sempre nos aconselhava a estudar, trabalhar, lutar.

Apesar de seus sofrimentos pessoais, Cidinha, como gostava de ser chamada, permaneceu alegre. E sempre com muita fé. Até quando contraiu um câncer raro de pulmão. Foi pouco antes do nascimento do meu filho mais velho, o Rafael.

Eu descobri sobre o tumor na reta final da minha gravidez. O câncer levou a dona Cida embora em menos de um ano. Perdi a minha mãe assim que virei mãe. Numa tacada só.

Ganhar e perder amor assim faz a gente refletir sobre o que realmente vale a pena. Então, há dois anos, dei uma tecla pause na minha vida. Eu precisava de um tempo.

Parei de trabalhar e decidi tirar um período sabático com os meus filhos porque estava exausta fisicamente e emocionalmente. Não queria fazer mais nada. Sentir mais nada.

Mas dois anos após iniciar o sabático e quase cinco anos depois da morte da minha mãe, o que eu quero é honrá-la. E a melhor forma de fazer isso é cicatrizar minhas feridas e seguir um novo caminho.

Ouvir a voz interior e decidir para onde ir é muito difícil quando viramos mães. Cancelamos nossos sonhos por tempo indefinido. E ficamos ali tateando no escuro, em meio à rotina rígida de horários, afazeres e obrigações.

Mas ser só mãe não define ninguém.

Era o que a dona Cida tentaria me mostrar: não abrir mão de sonhar. Nem pelos meus filhos.

Quando eu saí de casa, minha mãe teve a síndrome do ninho vazio e passamos a nos desentender. Mas nunca deixamos de nos amar. Toda vez que me encontrava, ela lamentava a nossa distância física, me entregava alguma comida caseira e dava conselhos.

Um deles ela sempre repetia: seja feliz com a sua família. Mas não abra mão de ser quem você É e do que você QUER. Mulher sábia essa dona Cida.

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