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  • Luciane Rodrigues

A mulher-mãe

Ser mulher dói. Ser mãe dói mais ainda. Isso não sai da minha cabeça. Desde que eu tirei o meu período sabático de mãe, há dois anos, as fichas da minha vida tem caído com uma intensidade brutal.

Momentos do passado ficam em slow motion na minha mente e apontam sempre para uma falha: a minha dificuldade absurda de ser alguém além da mulher-mãe.

Ah, a mulher-mãe! Ela me acompanha desde sempre. Sim, desde sempre, porque ela não nasceu com os meus filhos. Ela surgiu bem antes.

Nasceu quando eu era criança e, por ser a menina caçula de um lar superprotetor, fui condicionada a brincar de boneca desde cedo. A cuidar do outro.

A rua não era minha. Meu pai deixava isso bem claro quando lançava aquele olhar colérico toda vez que me via correndo na rua de casa. Descabelada e descalça, brincando de esconde-esconde com os moleques.

Andar de bicicleta? Só na calçada até a casa verde da esquina. Vai lá e volta. Vai e volta. Vai. Volta. E assim encerrei minha entediante carreira de ciclista.

Como a rua era um problema, me voltei pra dentro. Dentro de casa. Dentro da minha imaginação. Dentro.

Parei de correr. Parei de pedalar. Parei de sentir qualquer brisa no meu rosto. Fechei-me. Isolei-me.

E de vez em quando, surgiam pessoas ou situações que me faziam acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Eu conseguia de novo sentir a brisa fazendo cócegas em mim. E voltava a ser feliz. Mas aí a minha mulher-mãe aparecia. E transformava meus amigos e namorados em pessoas de quem eu precisava cuidar. Controlar. E destruía tudo.

E de onde vem essa vontade louca de CUIDAR?

Das imposições plantadas em nós desde que somos meninas.

“Isso não é brincadeira de garota.” “Menina bonita gosta de bonecas e de vida cor-de-rosa.” “Não pode gostar disso, é para menino”.

E assim, vamos sendo moldadas. Moldadas a termos almas de mães e corpos de plástico. Viramos MULHERES-MÃES.

Porque a mulher-mãe é uma instituição do inconsciente coletivo feminino. Ela existe mesmo nas mulheres sem filhos. E é claro, ela faz parte do meu inconsciente também.

No meu caso, eu expulsei várias mulheres de lá (do meu INCONSCIENTE-SUPERCONSCIENTE) para dar lugar praticamente exclusivo para a mulher-mãe.

A supermulher ficou porque ela é uma extensão da mulher-mãe.

Já a mulher-sedutora foi para o saco faz tempo. A mulher-que-luta-pelos-sonhos foi dormir e volta já. A mulher-idealista foi para o exílio porque deixou de acreditar.

E assim, a mulher-mãe tomou conta de quase tudo. Quase. Porque ainda existem as outras mulheres que lutam para sair de dentro de mim. E essa luta interna tem me deixado cansada. Espero que elas consigam. Coloquem a mulher-mãe no lugar dela. Porque há espaço para todas.

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