A dor invisível

Nunca me imaginei sem filhos. Até quando era mais jovem, com meus vinte e poucos anos, sempre idealizei um futuro com família, marido, casa, crianças. Desses sonhos bem banais e comuns mesmo. Acho que vi filmes românticos demais. Pensava que era só eu estalar os dedos e meu longa hollywoodiano começaria a rodar. Mas a vida deu uma rasteira na minha prepotência.

 

Depois de quatro anos juntos, eu e meu namorido decidimos nos casar. Estava com trinta e três anos e louca para ser mãe. Topei me vestir de noiva já pensando na barriga de grávida. Casamos no civil, dois meses antes do religioso. Nesse dia, parei de tomar a pílula. E achava que até a cerimônia no religioso já pudesse estar grávida. Ou talvez, depois da lua de mel. Só que não foi bem assim.

 

 O casamento passou. A lua de mel também. E os meses quentes do verão, quando os casais se empolgam mais para namorar. E o tempo foi passando. E nada de bebê!

 

As visitas ao ginecologista viraram parte da minha rotina.

Eu tenho um mioma gigante - um tipo de tumor benigno - na parte externa do meu útero.

 

Os médicos decidiram investigar se isso estava me atrapalhando engravidar. Eu fiz uma série de exames. Alguns, bem desconfortáveis. E repeti exames, mais exames... Mas ninguém conseguia me dar uma explicação concreta sobre o porquê de eu não engravidar.

 

Naquele ano de 2011, eu estava trabalhando feito uma louca. Era muita pressão no trabalho, talvez isso pudesse estar atrapalhando, pensei. A cada menstruação, eu ficava frustrada. A ansiedade tomou conta de mim.

 

Até que finalmente, um ano após parar de tomar a pílula, eu engravidei. Confirmei com um teste de farmácia. E contei ao meu marido. A gente começou a fazer vários planos. Decidimos contar a notícia para a nossa família depois que eu fizesse o primeiro ultrassom, para checar se estava tudo bem.

 

Nesse meio tempo, passei por algumas situações estressantes. Eu me sentia supersensível e frágil. Achava que era normal, por conta dos hormônios femininos explodindo no meu corpo. Na verdade, eu não estava preparada para viver uma das maiores perdas da minha vida.

 

Foi num feriado de 12 de outubro. Eu estava em casa, de folga, com meu marido. Nós estávamos felizes.

 

À noite, saímos para comer comida japonesa. Quando voltamos, percebi um sangramento. No dia seguinte, peguei o metrô e fui me encontrar com a minha irmã. Ela é ginecologista e faz trabalho voluntário na Escola Paulista de Medicina. Contei tudo e pedi que ela me levasse para fazer um ultrassom com um colega.

 

O médico chegou e logo começou o exame. Um silêncio incômodo no ar me fez perceber que algo não estava bem. Ele foi claro: disse que não tinha mais nada dentro de mim. Eu tinha tido um aborto espontâneo.

 

Saí de lá com as pernas moles. E completamente fora do ar. Parecia que tinham arrancado meu útero. Minha irmã ficou perdida. Não sabia o que dizer ou fazer. Disse que tinha sido muito cedo, que ainda não tinha um bebê dentro de mim. Mas eu não acreditava nisso.

 

Eu a deixei ali. Peguei o metrô e voltei para casa. Avisei o que tinha acontecido para o meu marido. E me afundei na cama. No dia seguinte, voltei ao trabalho com a cabeça completamente confusa. Eu não conseguia trabalhar. Nem comer. Só queria dormir.

 

Lembro que depois disso, senti umas cólicas e fui até a emergência de uma maternidade, passar em consulta com um ginecologista. Foi a pior coisa que eu fiz. Na sala de espera, vi várias mulheres grávidas e senti raiva e inveja delas.

 

O médico só piorou a situação. Ele foi extremamente frio e técnico. Ainda por cima, deu alguns possíveis diagnósticos extremamente pessimistas. Voltei para casa soterrada no desânimo. Hoje, acredito que isso aconteceu por causa da falta de preparo de muitos serviços e profissionais de saúde. Eles não são treinados para lidar com mulheres que sofrem perdas gestacionais e neonatais.

 

Penso na dor dos pais que perdem seus bebês já num estágio mais avançado da gravidez. Uma dor invisível para a sociedade. Porque o luto deles é por alguém que não existiu perante os outros. Um ser humano que estabeleceu um vínculo forte com eles, mas que passou despercebido para familiares, amigos, médicos.   

 

Eu me sentia completamente incapaz de seguir adiante com a minha vida. Precisava de um tempo. Peguei uma licença no trabalho, por um período curto, uma semana.

 

Meu marido ficou o tempo todo do meu lado. Mesmo sofrendo, a preocupação dele era comigo. A melancolia era uma semente que só crescia dentro de mim.

 

Nos meses seguintes, eu não via graça em mais nada. Tudo parecia chato. Eu não via saída. Eu não tinha mais esperança. O aborto tirou meu entusiasmo pelo trabalho, pela vida e até pelo meu relacionamento. Eu me sentia um zumbi flutuando no nada, sem vontade própria.      

 

Eu não queria contar para ninguém. Não queria que as pessoas sentissem pena de mim. Acabei desabafando com algumas amigas. Mas é uma situação muito difícil de lidar. Por medo de magoar ainda mais, as pessoas se calam. Não sabem o que dizer.

 

Não dá para mensurar a dor que é perder um filho. Seja eles uma semente, uma criança ou um adulto. Filho é filho. E a partir do momento que ele é gerado, nos sentimos mães. É algo mais forte em algumas mulheres e em outras, menos.  Em mim, o sentimento de mãe era imenso.

 

Todas as mulheres que não conseguem engravidar precisam de amor e de ajuda. Todas as mulheres que perdem um filho precisam de carinho e respeito. Respeito pelo luto delas, que precisa ser reconhecido. São mulheres que também precisam de apoio familiar, de amigos, e ajuda psicológica.

 

Eu fazia terapia tradicional, daquelas freudianas, quando sofri o aborto. Mas as sessões não estavam ajudando. Decidi recorrer a uma terapia alternativa, indicada por uma amiga. Foi o que me salvou de mim mesma.

 

O método tem o nome sugestivo de "Renascimento". A terapia, feita em grupo, parte do princípio de que precisamos nos reconectar com o momento do nosso nascimento e da época em que ainda somos bebê para entender nossos problemas de hoje. Através de técnicas respiratórias, as pessoas entram num estado de consciência alterado, que leva a insights sobre a própria vida.

 

Tudo depende de como você se entrega ao seu renascimento. E eu me entreguei totalmente ao meu. Precisava daquilo para curar minhas feridas emocionais.

 

Foi pelo Renascimento que descobri que precisava me perdoar.  Estava cheia de tristeza e raiva no coração. Aquilo não me fazia bem. E por conta disso, não estava preparada para ser mãe.

 

À medida que as sessões avançavam, eu fazia novas descobertas sobre mim. Chorei tanto naquelas sessões que parecia que, com minhas lágrimas, eu lavava e limpava a minha alma.

 

Uma das últimas sessões foi especial. Foi realizada na água, com dois terapeutas experientes. Naquela sessão, eu senti que meu coração se acalmava. Pela primeira vez em meses, não me via um bicho assustado, uma criança carente. Finalmente, renasci.

 

Eu me vi segura e capaz de cuidar de outra pessoa. E senti a presença de um menino. Eu me vi cuidando de um menino. Saí de lá com o coração tranquilo.

 

Seis meses depois, eu e meu marido descobrimos que estávamos grávidos do Rafael. O garotinho de três anos e meio que hoje alegra a nossa vida.      

 

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Sabático de mãe

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