Sabático de mãe

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Em águas profundas

Solidão era o que eu menos esperava quando virei mãe. Afinal, marido, filhos, família. Parecia que a vida mais agitada de todas me esperava pela frente. Mas as coisas não começaram bem assim.

 

Eu nunca tinha pensado muito sobre como é a rotina imediatamente após o parto. Ninguém falou comigo, por exemplo, sobre o puerpério, o período da quarentena após o nascimento do bebê. Nas minhas duas gestações, foi o momento mais difícil.

Ninguém diz que você vai ter um bebê nos braços para aprender a decifrar. A cuidar, perceber o ritmo, o jeitinho, os horários. Mas que você vai estar um trapo, por causa das noites mal dormidas, dos seus questionamentos como mulher, da desordem na sua vida e nos seus hormônios.

 

O nascimento do primeiro filho a gente nunca esquece. E do primeiro puerpério também não. Foi um momento delicado, e com ele, veio o inesperado.

 

Por causa dessas peças que o destino prega na gente, o momento que deveria ser o mais feliz da minha vida foi também o mais triste. Minha mãe foi diagnosticada com câncer de pulmão poucos dias depois do meu parto. Minha irmã mais velha, que é médica, não queria me contar. Tinha medo que meu leite secasse. Ela disse apenas que tinham achado um tumor na minha mãe e os médicos estavam investigando para ver o que era.

 

Eu fingi acreditar para não desmoronar. Achava que não era certo com o meu filho. Ele precisava de uma mãe tranquila.

 

Quando eu estava grávida, me lembro da minha mãe dizendo que eu não ia dar conta de cuidar sozinha de um recém-nascido. Ela sempre se queixava porque eu morava num bairro distante. Queria eu que morasse perto dela, do meu pai e da minha irmã. Mas desde que eu saí de casa para morar com o homem que foi meu namorido e depois meu marido, sempre preferi morar em bairros mais próximos da região central de São Paulo. Era uma necessidade, por causa das nossas carreiras.

 

Minha mãe queria ficar perto de mim e do neto. Queria cuidar da gente. Já eu e meu marido queríamos aprender a cuidar do nosso filho sozinhos. E subestimamos o trabalho que íamos ter pela frente.

 

O puerpério é um mergulho em águas profundas. Parece que você vai ficar ali, naquelas águas, para sempre. Eu tive sorte. Alguém para me ajudar a respirar. Meu marido tirou férias no trabalho e ficou comigo em casa, durante toda a quarentena pós-parto.

 

Algumas mulheres passam por essa fase sem o apoio do companheiro, porque a licença-paternidade no Brasil é ridícula e o pai precisa voltar a trabalhar, enquanto a mãe segura a onda em casa.

 

Quando meu parceiro voltou ao trabalho, eu senti com mais intensidade o que era a solidão e o cansaço do pós-parto. Com minha mãe doente, minha irmã se empenhou em levá-la para fazer exames, médicos e até uma cirurgia.

 

Eu acompanhava tudo de casa, sozinha com o meu filho. Eu sabia que estava perdendo a minha mãe. Isso no momento mais delicado da minha vida, justamente quando eu me tornei mãe.

 

É por isso que hoje aconselho todas as amigas recém-mães: sempre aceitem ajuda. O pós-parto é barra-pesada. E se ele vem acompanhado de problemas que acontecem na sua vida no caminho, pior ainda.

 

Desde o começo, eu só queria que minha mãe estivesse comigo naquele momento. Apesar da distância, das diferenças de pensamento. Eu só queria ter ela por perto. É o que a gente quer nessa fase, sabe? A mãe. Para dar um palpite que você não vai ouvir, fazer aquela comidinha que só ela sabe, ou simplesmente, abraçá-la. Sentir o cheiro dela. E ouvir que vai ficar tudo bem.

 

Lamento muito não ter sido assim. Mas não me vitimizo por isso. São coisas da vida. Eu me vangloriava por ser independente e saber me virar sozinha. Mas descobri do pior jeito o quanto precisava da minha mãe. O quanto ela me fazia falta.

 

Fiquei uns dias com a minha sogra, na chácara dela no interior de São Paulo. A pessoa que mais me ajudou naquele momento. Ainda com o coração apertado, sonhava e pensava na minha mãe o tempo todo. Tentava espantar a tristeza cantarolando Tim Maia para o meu filho.

 

Hoje, acho que tudo vem na hora certa. E até viver o pós-parto naquele período me ajudou. Se eu não tivesse o meu filho para cuidar, com certeza, teria surtado.

 

Isso não quer dizer que foi fácil. Além da falta da minha mãe, sentia saudades dos amigos, do trabalho, da minha vida. Sentia falta de mim mesma. Não me reconhecia no espelho. As unhas cheias de cutícula, os cabelos longos e mal cuidados. A pele seca, as olheiras. Um corpo estranho após o parto. E aquela sensação de que nunca mais voltaria a dormir.

 

A privação do sono, o isolamento social, a falta de tempo, a descoberta de uma nova mulher, agora, mãe. É muita coisa de uma vez. Parece uma avalanche. Mas passa. Para mim, a única coisa que não passava era a carência da minha mãe.

 

Meses depois de voltar ao trabalho e já ter saído dessa fase, eu a perdi. Na minha segunda gravidez, já sabia que não a teria por perto. Novamente senti  a falta dela, ainda mais do que da primeira vez.

 

Queria que ela estivesse comigo ali, naqueles dias tão complicados que eu já conhecia. Mas eu sabia que agora teria que ser minha própria mãe. Teria que aprender a me cuidar sozinha. Porque agora, o papel de mãe amorosa era meu. E não tinha mais volta.

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