Sabático de mãe

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O porquê de um sabático

Quando a gente vira mãe, vira também refém do tempo. E aprende que é preciso fazer escolhas. Eu fiz as minhas. E não me arrependo delas.

 

Muitas vezes, me vi sem saída. A rotina trabalho, casa, criança pra cuidar te sufoca. Por mais que você ame sua carreira, ame seus filhos e seu marido, tem horas que você precisa respirar.

 

E a maternidade te rouba esses momentos. Eu me sentia dentro de um traje de mergulho apertado, sem máscara de oxigênio. A rotina estava me afundando num mar de cansaço, com ondas gigantes de stress e preocupação.

 

Quando decidi tirar meu sabático de mãe, tive medo. Sempre trabalhei, desde os tempos da faculdade. Nunca tive um período longo de respiro, fora as férias anuais e licenças depois dos nascimentos dos meus filhos.

 

Tirar um período para ficar com as crianças exigiu planejamento financeiro, mas também muita coragem. Coragem para começar uma vida completamente diferente da que eu estava acostumada nos últimos vinte anos.

 

Guardava minhas melhores roupas para sair, trabalhar.  Hoje, elas estão no guarda-roupa. E já doei as que nunca mais vou usar. Agora, estou sempre com o meu uniforme de mãe: calça de ginástica, camiseta e tênis All Star.

 

Maquiagem? Só em raras ocasiões especiais. Vivo com a cara limpa. E com a alma mais relaxada. Depois de emendar uma gestação em outra e três anos puxados de trabalho, finalmente o descanso chegou.

Não que descanso de mãe em tempo integral seja ficar com os pés pra cima. Pelo contrário. Minha rotina é bem agitada.

 

No período da manhã, fico com as crianças. Tomo o café com o meu filho mais velho, o Rafa, já no meu pé, querendo que eu invente alguma brincadeira.

 

Brincamos com massinha, desenhamos, pintamos com guache e aquarela.

 

São as oficinas de arte da mamãe Lú. Enquanto isso, a minha caçula, a Clarinha, de quase dois anos, perambula inquieta pela sala. Ora participa das brincadeiras, ora quer mamar.

 

Perto das onze e meia, começo a arrumar as mochilas dos dois.  Meio-dia, almoçamos. Arrumo meus filhos pra escola e saímos.

 

Tenho o período da tarde livre. É o momento em que limpo e organizo o apartamento, constantemente bagunçando pelas crianças. Vou ao supermercado e abasteço a casa. Duas vezes por semana, faço yoga, o que me ajuda a recuperar meu corpo e meu equilíbrio.

 

O tempo passa voando e às cinco da tarde, já preciso buscar meus filhos na escolinha. Voltamos pra casa, dou um lanche pra eles. E brincamos no chão da sala.

 

Depois, começo a fazer o jantar: o que para mim é uma terapia, eu amo cozinhar. Meu marido chega e jantamos em família. Antes, quando eu trabalhava, cada um fazia a refeição num horário diferente. Agora, o jantar virou pra gente um momento importante.

 

Damos banho nas crianças e meu marido coloca os dois na cama, enquanto eu tomo banho. E a noite, ufa, é dos adultos!

Conversamos, assistimos séries e documentários, namoramos.

 

Precisei de várias linhas para descrever a minha rotina, o que prova que vida de mãe que não trabalha NÃO é tão monótona quanto parece.

 

Quando eu trabalhava, quase nada disso era possível.

 

Era uma gincana constante para cumprir tarefas e obrigações. E eu estava exausta disso.

 

Acho muito cruel o que a sociedade fez com as mulheres. Minha geração foi criada para ter a carreira dos sonhos, estudar idiomas e ter sucesso profissional.

 

A gente não tem a mínima ideia do que vai acontecer quando decide ser mãe. Você vai precisar de tempo e de ajuda. Ou vai viver numa eterna corrida.

 

Eu era bem workaholic. Passei anos trabalhando em redações de televisão, com horários malucos e plantões exaustivos. Sempre me orgulhei do meu trabalho. Gostava muito do que fazia.

 

Mas quando eu virei mãe, percebi que precisava de uma mudança,  nem que fosse passageira.

 

Os filhos ocupam um espaço imenso na vida dos pais. E precisamos dar tempo para eles. Principalmente na primeira infância, os primeiros anos de vida. Como eu já disse, não me arrependo das minhas escolhas.

Fiz o que podia, nos momentos que podia. Mas lamento não ter conseguido parar antes. Só agora, mais de três anos depois do nascimento do meu primeiro filho, consegui dar um tempo.

 

Economizamos, abrimos mão de alguns confortos, e conseguimos. Eu e meu marido demos uma mãe em tempo integral para os nossos filhos. Sim, para eles faz muita diferença. E pra gente também.

 

Eu quero saber como os meus filhos estão, sem ninguém precisar me contar. Quero cuidar de perto da rotina deles.

 

Fazer franguinho grelhado e milho cozido pro Rafa.Trocas as fraldas da Clarinha. Arrumar as gavetas deles. Brincar de bexiga e aviãozinho sem aquela pressa que eu tinha antes, porque precisava ir trabalhar. Sentir a alegria do Rafa quando pego ele na escola.

 

Queria que todas as mães pudessem ter a chance que eu tenho hoje. Muitas precisam trabalhar pelo sustento da casa. Fora aquelas que são mães solo, precisam ganhar dinheiro, cuidar da casa e dos filhos- tudo sozinhas.  Minha imensa admiração por essas mulheres. Meu enorme respeito por aquelas que lutam para manter a carreira e se dividem em vários papéis.

 

Eu estou tentando dar conta do que posso.  Sei que, um dia, vou voltar a trabalhar. 

 

Ah, mas como é bom curtir o presente! E meu momento agora é aqui, com o Rafa, a Clarinha e toda essa aventura maluca de ser a mãe deles. E tá bom assim.       

                   

 

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