Sabático de mãe

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Clara

Dizem que nenhuma gravidez é igual à outra. Hoje, eu entendo isso muito bem. Cada filho vem num momento diferente da vida dos pais. Não tem como as coisas serem as mesmas.

 

A Clara entrou na nossa vida quando a gente menos esperava.  

 

Eu levei exatos três anos para ter o meu mais velho, o Rafael. Amarguei falsos positivos, um aborto, vários exames. Ia começar um tratamento de fertilização quando descobri que estava grávida dele. Então, pra mim, se eu quisesse ter um mais um filho, ia passar pelas mesmas dificuldades.

 

Mas quando o assunto é maternidade, a gente cospe pra cima e cai na cara. O TEMPO TODO!

 

O Rafa estava com um ano e meio. Eram nossas primeiras férias em família – minhas, do Rafa e do meu marido, o Thiago. Estávamos exaustos e decidimos escolher um lugar relaxante: uma pousada na Bahia.

 

 

Ah, foi muito bom! Relaxamos. Relaxamos de verdade. E eu voltei grávida.

 

Demorou a cair a minha ficha e a do meu marido. A gente não tinha planejado aquela gravidez. Queríamos outro filho, mas íamos esperar um bom tempo. A minha fertilidade já tinha dado sinais de que não era das melhores. E nem pensamos na possibilidade de engravidar por acidente.

 

O Thiago tinha acabado de pedir demissão de um emprego estável para começar uma empresa por conta própria.  O dinheiro em casa estava curto. Precisávamos mais do que nunca que eu trabalhasse.

 

Com essa realidade, pensar num segundo filho era loucura. Mas quem disse que a gente planejou alguma coisa? Simplesmente, aconteceu!

 

E eu fiquei feliz pra caramba! Das duas vezes, eu sonhei e acertei o sexo dos meus filhos. Eu sabia que agora ia ter uma menina.

 

 

Eu sempre dizia que se tivesse uma filha, ela ia se chamar Clara. Eu acho esse nome lindo demais!

 

Eu sabia que, com a Clara, teria a chance de fazer algo diferente. Algo que não tive a oportunidade de fazer na gravidez do Rafa: tentar um parto normal.

 

Quando eu engravidei do Rafael, a felicidade tomou conta de mim. Então, deslumbrei geral! Só queria saber de dieta e exercícios saudáveis para grávidas, enxoval e quartinho de bebê, ensaio fotográfico de barrigão.

 

Foi só uns dois meses antes do parto que comecei a refletir sobre o mais importante: O PARTO!

 

Por causa de um mioma – um tipo de tumor benigno- que eu tenho do lado externo do útero, as médicas que fizeram o meu pré-natal nunca me deram grandes esperanças de ter um parto normal. Mas eu tive uma gravidez extremamente tranquila e saudável. O mioma ficou bem quietinho e não deu trabalho. Então, quando comecei a buscar informações sobre parto normal, descobri que sim, era possível. 

 

Mas as médicas que me acompanhavam acharam que a melhor opção para mim seria uma cesárea com hora e data marcadas. Eu não questionei. Meu filho nasceu bem e com saúde.

 

Voltei pra casa e amarguei as consequências de uma cesárea agendada.  Andava me arrastando. Sentia dores no corpo todo. Precisei tomar um remédio à base de morfina. Comecei a me recuperar apenas três meses após o parto.

 

É claro que eu estava feliz por ter ocorrido tudo bem. Mas a sensação de parto roubado me acompanhava.

 

Eu queria ter sido a protagonista do meu parto. Ter deixado meu filho nascer na hora que ele escolhesse. E não ter ficado ali, e aceitado tudo que me foi indicado. Por medo. Medo que algo desse errado.

 

Eu estava no quarto mês de gravidez da Clara quando eu e meu marido decidimos marcar uma consulta com uma médica obstetra que segue a linha de parto humanizado.

 

A doutora Deborah nos conquistou na primeira consulta. Ela disse que não seria fácil tentar um parto normal com um mioma grande na parte externa do útero. Mas que era possível e que o mioma não era motivo para não tentar um parto normal.

 

A gente adorou a doutora Deborah, mas sabia que ficar com ela teria que ser uma decisão bem planejada. Por trás dela existia toda uma equipe - auxiliar, anestesista, pediatra, doula, enfermeira obstetra. Tudo isso ia custar um bom dinheiro.

 

Pelo nosso convênio médico, nada disso era possível. Na época, a rede pública também não oferecia o que eu procurava.

 

Eu queria segurança. Não queria que a Clara corresse nenhum risco. Meu desejo era que minha filha nascesse na hora dela. Com tranquilidade.

 

Meu marido tinha a mesma opinião que eu. Então, a gente apertou as contas e pagamos o parto humanizado da nossa filha.

 

A gente deu um jeito. Com a ajuda de uma rede de amigos, conseguimos montar o enxoval da Clara – eles doaram as roupas das filhas deles pra gente.

 

Colegas de trabalho fizeram um chá de bebê para mim, o que garantiu as fraldas de praticamente todo o primeiro ano de vida da Clarinha.

 

Nada de quarto de bebê dessa vez – a Clara iria dividir a cama comigo.   

 

Minha gravidez foi tranquila. Mas como eu disse no começo, nenhuma gestação é igual à outra. E nas últimas semanas, eu sofri muito.

 

Quando a Clara desceu e começou a se posicionar, estouraram veias nas minhas pernas e na minha virilha. Eu fiquei toda inchada e com dores horríveis. Não conseguia andar direito.

 

A doutora Deborah me tranquilizou e disse que apesar de tudo, nada impediria um parto normal. Isso me deu forças para seguir em frente.

 

Foi então que eu marquei uma visita para conhecer aquela que seria o meu anjo da guarda no momento do parto – a minha doula.

 

O nome dela já diz tudo: Mariana Amoroso. Tem algo mais lindo do que ter amor no sobrenome? E ele não está lá à toa. A Mariana é amor puro. Daqueles raros, mas fáceis de reconhecer.  

 

Muita gente me pergunta para que serve uma doula. As doulas são mulheres maravilhosas, que conhecem o poder do sagrado feminino. Guardiãs da força das mulheres. Elas nos ajudam a resgatar essa força que a gente esqueceu que têm, num dos momentos mais importantes da vida, o parto.

 

Eu comecei a sentir uma leve cólica numa quarta-feira à noite. Mas não tinha certeza se era a Clara chegando. No dia seguinte, a cólica aumentou de intensidade, e eu avisei a doutora Deborah e a Mariana.  Eram as primeiras contrações.

 

Na noite da quinta-feira, elas aumentaram. Ficaram insuportáveis. A Mariana me mandou tomar um banho quente e veio para a minha casa.

 

A dor do parto realmente é a pior dor que eu já senti na vida. É uma dor horrível na lombar, que parece que vai te cortar por dentro. É difícil de suportar.

 

Mas eu tinha uma fada do meu lado. A Mari improvisou uma bolsa de água quente com sal grosso para aliviar a minha dor na lombar. Fez massagem. Deu acolhimento. Deu-me forças para continuar.

 

Eu nunca vou esquecer-me daquela noite. Meu apartamento estava em silêncio, com o Rafa dormindo no quarto dele. Minha sogra veio do interior para cuidar do neto e estava na sala.

 

No meu quarto, eu, a Mari e meu marido. Tudo iluminado por velas. O Thiago colocou as músicas que fazem parte da nossa história, para me acalmar. Tinha dor, mas tinha muito amor.

 

Quando a minha bolsa estourou, a Mari avisou que era o momento de ir para a maternidade. E lá fomos nós. Eu com ela no banco de trás, urrando de dor. E o Thiago dirigindo feito maluco.

 

Na chegada, a minha doula já sabia para onde me levar e como eu devia ser tratada. O que facilitou muito. Em poucos minutos, me conduziram para uma sala de parto humanizado.

 

O lugar era lindo. De nada lembrava o centro cirúrgico onde o Rafa nasceu. Tinha pequenas estrelas no teto. Bola de pilates para massagear a região da virilha.  E uma banheira enorme de hidromassagem.

 

Eu fiquei ali por horas, com muita dor. Amparada e protegida pela Mari e pelo Thiago. Foi um momento lindo.

 

Dizem que quando a gente está nessas situações passa um filme da nossa vida na cabeça. Tudo acelerado e intenso. E é isso mesmo. Eu via tudo que já tinha acontecido na minha vida até ali, o momento da chegada da minha caçula.

 

Vi também a minha mãe. A dona Cida, sorridente, estava com a Clarinha nos braços. E me pedia para ter forças e aguentar mais um pouco.  

 

A doutora Deborah acompanhava os relatórios da Mari e das enfermeiras obstetras. E foi para o hospital na hora certa.

 

O parto humanizado é isso. É deixar a mãe e o bebê no comando. E só interferir quando realmente é necessário.

 

E no meu caso, apesar da minha luta, foi preciso intervir.

 

A Clarinha não estava conseguindo descer.  Eu estava há 12 horas em trabalho de parto ativo. Já tinha testado várias posições. Já tinha atingido a dilatação máxima. Mas o trabalho tinha parado de evoluir. Eu tive desproporção céfalo-pélvica – isso acontece quando a pelve da mãe não permite a passagem da cabeça do bebê. Algo que só é possível de identificar durante o trabalho de parto.

 

A doutora Deborah não quis arriscar nossas vidas. Ela mandou a gente para o centro cirúrgico, onde a equipe dela já estava de prontidão, caso algum problema acontecesse.

 

Eu fui para a cesárea de emergência frustrada. Brava comigo por não ter conseguido. Mas acima de tudo, preocupada com a Clara. Eu queria saber se a minha filha estava bem.

 

A diferença de uma equipe médica humanizada para uma equipe comum está no carinho. O carinho como eles tratam as famílias naquele momento, tão especial.

 

Foi tudo muito rápido. Eu estava exausta e completamente tonta. Mas lembro da Mari ali, me acalmando. E do choro da Clara quando ela nasceu.

 

Lembro-me do momento que ouvi a voz do doutor Ricardo, o pediatra que acompanhou o nascimento da Clara e é pediatra dela e do Rafa, até hoje.

 

Ele colocou a Clara no meu peito. E ela mamou pela primeira vez. No parto do Rafa, a pediatra do hospital afastou ele tão rápido de mim que mal consegui ver o rosto do meu filho. Fui amamentá-lo cinco horas após o parto. Quando o reencontrei, ele estava assustado. Faminto.

 

 A Clara não! Ela mamou quando nasceu. Deixaram minha bebê um tempão comigo e o meu marido. Respeitaram o nosso momento. E isso fez muita diferença. Valeu cada centavo, cada sacrifício.

 

A Clara não sofreu nenhuma interferência. Não foi virada do avesso quando nasceu.

 

 

Ainda no hospital, fui questionada por familiares se tudo tinha valido a pena – porque eu senti as dores do parto normal e também da cesárea. Não era melhor eu ter me poupado?

 

Eu penso diferente. O nascimento da Clara foi exatamente como eu queria. Não sou menos mãe porque não consegui ter um parto normal.

 

Eu lutei pra caramba. Eu superei o medo que eu tinha do meu mioma. E minha filha nasceu na hora que ela escolheu. Cercada de amor, de força, de respeito. Eu fiz o que meu coração mandou. Fui a protagonista do meu parto.

 

Quando o Rafael crescer, ele vai saber que eu lutei muito para tê-lo.

 

E a Clara vai saber que eu lutei muito para tê-la também.

 

Foram batalhas diferentes. Mas as duas valeram a pena.

 

 

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