Sabático de mãe

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Maternidade e solidão

Tirar um período para ficar com as crianças parece algo agradável e feliz para quem vê de longe. É óbvio que os momentos de plenitude estão ali. Você consegue participar da rotina dos seus filhos, fazer comida pra eles, dar banho, colocar pra dormir. Curtir, curtir.  Abraçar, brincar de massinha, de pintar, de pista de carrinhos...  Ah, é muito bom mesmo!

 

Mas também existem os momentos de solidão absoluta. De não ter com quem conversar, trocar ideias. Os momentos em que você já não sabe quem é além de ser mãe. E isso perturba demais.

Mal tenho tempo para ler, escrever, encontrar os amigos. Estou envolvida em tempo integral em cuidar das crianças e manter a casa funcionando. Faço nossa comida todos os dias, brinco, troco a roupa, as fraldas, escovo os dentes, levo e busco na escolinha.

 

Sou líder de recreação, psicóloga, babá, cozinheira, organizadora de casa, motorista, educadora...  E não sei mais o quê.  E é isso.

 

Eu e meu marido optamos por deixar as crianças na escola em meio período, o que significa quatro horas por dia. A gente acha muito cedo para deixá-los mais tempo que isso.  

 

Mas a gente paga um preço alto por essa escolha. Que quero deixar claro, É A NOSSA ESCOLHA. Cada família tem um pensamento diferente, acredito que não existem regras na criação dos filhos.   

 

Toda escolha tem suas consequências. Eu tenho apenas quatro horas livres em 24 horas. E meu marido precisa trabalhar dobrado para sustentar a família toda.

 

Sei que é uma fase. E isso me tranquiliza.

 

Isso não quer dizer que a solidão não venha me assombrar de vez em quando. Retirei-me da sociedade para cuidar dos meus filhos. Abri mão de ter um salário, de ter uma carreira.

 

Sinto falta de conversar com as pessoas que eu encontrava no meu dia-a-dia. Sobretudo os colegas de trabalho.  

 

Dei um tempo porque cansei de me dividir em milhares de papéis. Encarei o isolamento porque me vi sem saída, assim como várias mães que não conseguem dar conta de trabalhar, cuidar dos filhos e da casa.

 

Meu marido nisso tudo? Eu tenho sorte. Tenho um homem maravilhoso ao meu lado. Ele trabalha o dia inteiro. Mas chega em casa e faz questão de dividir as tarefas domésticas e ser um pai presente. Ele usa o pouco tempo livre para ser PAI, o melhor que eu já vi.

 

Sei que não é bem assim para muitas mães, que ainda sofrem a angústia de companheiros ausentes e machistas. E estão completamente sós nessa treta.

 

As pessoas que estão de fora desse mundo pais e filhos não têm ideia de como uma rede de apoio faz falta. Dizem que é preciso uma aldeia inteira para cuidar de uma criança. Mas quem disse que isso se aplica na vida contemporânea, hein, cara pálida?

 

A realidade hoje é que muitas famílias não contam com a ajuda dos parentes. Mães, sogras, tias, irmãs. Estão todas separadas pela distância física. Ou pela correria do mundo moderno.

 

Na nossa aldeia aqui em casa, não tem cacique. Não tem tios ajudando, nem avós. Sou só eu e o meu parceiro. Um casal sobrecarregado que está se doando imensamente aos filhos.

 

Já apelamos para babás, mas para gente, não funcionou.  A melhor saída pra nós foi eu tirar um período sabático em casa para cuidar das crianças.

 

Mas às vezes, eu me pergunto: será que as coisas seriam diferentes se a nossa sociedade fosse mais evoluída?

 

No nosso país, o governo e as empresas não ajudam muito os pais. Não existe empurrão algum para a mulher continuar trabalhando após ter os filhos. Faltam creches, leis trabalhistas decentes, políticas públicas para as famílias.

 

De vez em quando, aparece alguma reportagem sobre como as coisas são diferentes na Islândia ou em algum país frio do norte. Histórias de mulheres que tiveram períodos longos de licença-maternidade, pais que puderam ajudar as companheiras porque tiveram uma licença-paternidade decente. Incentivos públicos aos casais com filhos.  

 

Aqui no Brasil, os pais se viram como podem. E é claro que a carga mais pesada é a das mulheres.

 

Sim , essa é a maternidade real que as pessoas têm falado muito na internet, nas rodas de conversas, nos grupos de whatsapp. É a maternidade da nossa época.  A do desamparo social.

 

Um problema que precisa ser discutido. A gente precisa mudar. Para que as mulheres tirem tanto peso das costas. E deixem de se sentir tão sozinhas e abandonadas quando viram mães.

 

É pesado, é chato de saber. Mas é a verdade.

 

E essa verdade nada tem a ver com amor.

 

O amor que eu tenho pelos meus filhos é imenso e ultrapassa as fronteiras do meu amor próprio.

 

Mas que é difícil essa rotina de mãe, eu admito, é sim.

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