Sabático de mãe

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A separação

Uma hora vem aquele momento que as mães que trabalham fora sabem que vai chegar: a hora da separação.

 

O Rafael, meu filho mais velho, foi para a escolinha logo após o final da minha licença-maternidade. Com cinco meses, ele já encarou a rotina fora de casa. Para mim, foi um baita sofrimento.

 

Eu fui pega de surpresa pelos sentimentos que surgiram dentro de mim semanas antes de voltar a trabalhar. Eu não tinha com quem deixar o meu filho e já estava decidida pelo berçário. Mas de repente percebi que não estava preparada para me separar do Rafa.

 

Quando ele completou três meses, comecei a procurar as melhores escolinhas do bairro. Marquei algumas visitas. Lembro bem de quando visitei a primeira escola. Era um sobrado num bairro de classe média em São Paulo.

 

Entrei lá segura de que estava fazendo a escolha certa para o meu filho. Odiei a visita. Cortou o meu coração ver ali bebezinhos de três meses. Dormindo em quartinhos coletivos, já expostos a viroses de todos os tipos. Sob o cuidado de estranhos.

 

Comecei a achar uma droga essa coisa das mães voltarem a trabalhar tão cedo. E terem que deixar ali seus recém-nascidos.

 

Sei que as crianças são bem cuidadas na maioria dessas escolas. Mas bebês tão pequenos precisam do amor dos pais, da família. O resto são as circunstâncias favoráveis a isso ou não. E ninguém me faz acreditar no contrário.

 

O primeiro ano de um bebê é um momento mágico e delicado para os pais. Eles precisam se adaptar à nova rotina de cuidados com um filho. Isso demanda tempo.

 

Só que na nossa sociedade, a gente tem pressa. Eu ouvia coisas do tipo “você tem que voltar a trabalhar logo ou vai acabar com a sua carreira”. 

 

Oi? E meu bebê nisso tudo? Meu filho era amamentado só no peito e ficava comigo no sling o dia todo. Tem coisa melhor que isso para um recém-nascido? Eu acho que não. Mas fui em frente. 

 

Visitei a segunda escola do bairro. A Terceira. E a quarta. Não tinha coragem de fazer matrícula em nenhuma delas. Eu não conseguia aceitar que precisava deixar o meu filho. Porém, eu também não sabia o que fazer com a minha vida.

 

Estava dividida e cheia de medos. Tinha medo de sair de um trabalho estável e não conseguir me sustentar. Medo de nunca mais conseguir emprego por ser mãe. Medo de ficar sozinha em casa com um bebê.

 

Eu não estava preparada para me separar do Rafa. Mas também não estava pronta para seguir um novo caminho. Precisava de um tempo para resolver tudo na minha cabeça.  Só que eu não tinha mais tempo.

 

Quinze dias antes de voltar ao mundo corporativo, matriculei o Rafael na escolinha que achei mais bacana. Isso depois de passar pela porta e voltar atrás umas mil vezes.

 

O Rafa foi para a tal escolinha sem saber o que era mamadeira. E não queria aceitá-la de jeito nenhum. Ele ainda se alimentava no meu peito. E não curtia leite em pó de farmácia. Passou fome, foi submetido ao stress de se separar da mãe.

 

Quando ia buscá-lo, ele passava três horas no meu peito. Sim, três horas! Tudo bem, muita gente vai dizer que ele se adaptou com o tempo.

 

Sim. E eu também me adaptei. Depois de muitas tentativas, aprendi a tirar leite com o auxílio de uma bomba de sucção. Levava a bomba para o trabalho e tirava o leite no meu horário de almoço. Era o mínimo que eu podia fazer pelo Rafa.

 

E também uma necessidade. Meus seios quase explodiam no intervalo das mamadas que eu precisava pular porque estava no trabalho.

 

Meu filho, assim como eu, virou a página. Porque a gente se acostuma com tudo, a gente sobrevive. Mas sobreviver não é viver. E eu não vivi os primeiros anos do Rafa como eu gostaria.

 

Mas não me cobro por isso. Fiz o que eu podia e achava o certo para mim e o meu filho. Assim como várias mães que trabalham fora e pensam na melhor alternativa para suas famílias.  Elas não devem ser julgadas ou criticadas pelas escolhas que fazem. Hoje, eu sei disso muito bem.

 

Existem ainda as mães que não têm saída. Precisam trabalhar pela sobrevivência. Quantas milhares não têm por aí, sem nada de licença. Nem escolinha.  Até a amamentação virou um lance da classe média. Pois para quem enfrenta subempregos e jornadas extensas, fica impossível manter um bebê com leite materno.

 

Então, eu sei que apesar de tudo, faço parte de uma minoria privilegiada.

 

O problema é esse sistema que não valoriza a maternidade. Que não enxerga a formação de um ser humano como algo primordial para o planeta. Que não vê o amor como cura dos nossos males modernos.

 

E o amor precisa de vínculo. Precisa de tempo.

 

Ouvi várias colegas solteiras ou sem filhos me questionarem sobre a duração da licença maternidade. Elas acreditavam que quatro meses eram suficientes para a mãe ficar com o bebê. Acreditem manas, não é.

 

Se a gente erguer um pouco o pescoço e der uma olhadinha do que acontece em sociedades mais modernas e evoluídas, dá para sentir isso.

 

Na Suécia, país que tem uma sociedade modelo, o pai e a mãe têm os mesmos direitos. Um ano e quatro meses em casa para cuidar do bebê. Cada um é obrigado a tirar, de maneira alternada, no mínimo, 90 dias para ficar com o filho.  E podem doar ao parceiro os dias que não utilizar.

 

Sim, lá fora a situação é bem diferente e nem dá pra comparar. A gente ainda está engatinhando no assunto direitos de pais e mães.

 

As coisas precisam mudar. Mas vão ficar na mesma enquanto enxergarmos as mães trabalhadoras como um problema. Enquanto a licença-paternidade durar menos que um feriado.  E o primeiro ano de vida da criança não for valorizado como o mais importante da vida de uma família.

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