Sabático de mãe

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Espelho meu

 Já tive sérios problemas em me aceitar como eu sou.  Sei que gostar da própria aparência é um problema para várias mulheres, não importa a idade, a cor ou a classe social.

 

Começa cedo, na infância. Desde pequenas, as garotas são ensinadas a cultivar a vaidade, nas brincadeiras com bonecas, nas maquiagens infantis, nas roupas e fantasias de princesas. Os meninos são os grandes heróis corajosos. As meninas são estimuladas a ser frágeis e belas.

 

Quando se encaixam nos padrões de beleza da sociedade, elas se destacam. Caso contrário, é foda.

 

Essa pressão toda gera uma série de complexos e frustrações que se arrastam para a adolescência e depois para a vida adulta. Ainda mais em quem não consegue se enquadrar em padrão nenhum. Era o meu caso.

 

Fui a estranha da turma. Estranha é aquela que não é considerada nem bonita, nem feia. É a esquisita. Por isso, sofri bullying quase toda a minha fase escolar.

 

Eu sofri muito.  Eu me achava magra demais, desengonçada demais. Usei aparelho nos dentes da infância ao início da vida adulta. Também fui premiada com uma miopia daquelas e uso óculos desde os 11 anos. Cheguei a pagar uma plástica de nariz com o meu primeiro salário.

 

Foi só depois de fazer a tal plástica no nariz, colocar lentes de contato e arrancar o terrível aparelho nos dentes que comecei a me aceitar melhor.

 

Só hoje percebo o quanto essa síndrome de patinho feio me atrapalhou na adolescência. Eu não precisava de plástica. Precisava de ajuda psicológica. Quanto sofrimento poderia ter sido evitado se eu tivesse aprendido cedo sobre AUTOESTIMA.  Tanto em casa, como na escola.

 

Eu expus o meu passado e falo sobre isso porque é um assunto muito sério. Todos os dias, milhares de crianças e adolescentes são bombardeadas com uma série de propagandas e discursos que mostram que só a “bonita” se dá bem. Só a “bonita” tem popularidade.  Tem alguma coisa muito errada. Isso é horrível.

 

As taxas de suicídio entre jovens estão nas alturas, em diversas partes do mundo. São meninas que tentam se encaixar em padrões de beleza para ter “sucesso” na vida amorosa, nas redes sociais da internet.

 

Eu sei, pois já fui assim, quis me encaixar num modelo que me venderam como o caminho da felicidade. E só posso dizer que essa nossa obsessão toda com a aparência é uma droga.  Que vicia a nós mulheres, sempre preocupadas com o peso ideal, com a selfie perfeita.

 

Homem não passa por isso. Mulher já nasce com a sina de ser magra e bonita para arrumar um bom casamento, ter filhos lindos e vender a imagem da família margarina.

 

É preciso mostrar para essa geração de meninas que estão crescendo agora que não precisa ser assim. Que elas não têm que ser gostosas bonecas de plástico para estarem em paz consigo mesmas. Que esses regimes ridículos a base de alface e óleo de coco não vão trazer nada além de diarreia.

 

A vida vai muito além do que essa cobrança de instagram para ter a aparência ideal.

 

Hoje eu tenho quarenta anos. Só comecei a me aceitar melhor aos vinte e cinco. Olha só quanto tempo eu perdi! Mas isso me trouxe uma certeza: Não quero que a minha filha e milhares de meninas por aí passem pela mesma situação.  Então, que tal valorizar mais as qualidades que realmente importam: “Caramba, que garota esperta!” “Olha, como ela é inteligente!”, “Que meiga!”.

 

Quero que meus filhos tenham a consciência de que a beleza é algo subjetivo e não é necessário se encaixar em padrões. Espero estar no caminho certo. Mas sei que esse caminho passa também pela minha autoaceitação.

 

Meu filho mais velho, de quatro anos, já me pegou reclamando num momento de fraqueza diante do espelho: “ai, como eu tô gorda!”. A reação dele foi ficar repetindo aquilo toda vez que me via trocar de roupa: “mamãe tá gorda!”.  Assim, fiz dele meu grilo falante. E algoz.

 

Percebi então o peso do meu deslize. As palavras e os gestos têm muita força para as crianças.

 

Hoje, sei que meus filhos só vão ter uma boa autoestima se eu estiver bem comigo mesma. Eu sou o modelo deles. Então, decidi conviver com o que me incomoda.  E celebrar a beleza de viver feliz com as minhas imperfeições.

 

Depois que tive meus dois bebês, meu corpo mudou completamente. Após passar por duas cesáreas, tenho dificuldades de perder a barriga do pós-parto.  Até hoje, as pessoas vivem me perguntando se estou grávida, por causa da barriguinha que teima em ir embora. Isso me deixa bem constrangida. Mas preciso aceitar que talvez essa seja a minha nova barriga e que eu não consiga mudá-la mais. Preciso gostar dela com suas cicatrizes e tudo o que ela já me deu.

 

Com a variação maluca de hormônios de períodos duplos de gravidez e amamentação, meu cabelo também não é mais o mesmo.

 

Por causa das noites mal dormidas de mãe, meu rosto ganhou rugas, olheiras e linhas de expressão. Eu envelheci.

 

Mas sabe de uma coisa? Sou mais feliz agora do que aos 25, quando só pensava em ser perfeita.  

 

Gosto de comer alimentos saudáveis, mas dieta para mim está fora de cogitação. Amo comer. Plásticas malucas? Nem pensar! Já passei por três cirurgias  na vida. Tratamentos de beleza? Até gostaria, mas não tenho nem dinheiro nem tempo para isso.

 

Então, o que me resta é fazer as pazes com o meu espelho. E com isso, até que a gente tem se entendido melhor.

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