Sabático de mãe

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Ela veio de repente. Foi sem planejar. Sem expectativas. Uma tremenda e linda surpresa.  Quando descobri que estava grávida da Clara, menos de dois anos após ter tido o Rafael, eu quase não acreditei.

 

Afinal, muitos casais estudam com cautela a possibilidade de ter um segundo filho. É um dos maiores questionamentos depois de ter o primeiro. Será que vale a pena ter dois? Será que eu aguento? Será que eu quero? Será que vou amar igual ao primeiro? Será que vou conseguir sustentar dois filhos? São muitos “serás”.  Dúvidas que ficam martelando na cabeça.

 

Eu sempre quis ter mais de um filho. Acho a experiência de ter um irmão muito bacana para as crianças. Mas quem me conhece bem sabe que sou mais movida pelo coração do que pela razão. Então, eu não pesei muito os prós e os contras antes de engravidar da Clara. Na verdade, eu nem esperava ela na minha vida tão cedo.

 

Como eu já contei em outros posts, eu demorei três anos para ter o Rafael. Nesse meio tempo, perdi meu primeiro bebê, passei por vários exames médicos complicados e quase comecei um tratamento de fertilidade.

 

Minha crença de que eu não era fértil caiu por terra quando descobri que estava grávida da Clara. Eu não estava tentando engravidar. Eu achava que ia demorar um tempão para ter um segundo filho. Só que aconteceu.

 

O Rafael estava com um ano e meio. Eu tinha perdido minha mãe há poucos meses. A gente se mudou para um apartamento mais próximo da minha família. O Thiago, meu marido, tinha acabado de pedir demissão para se arriscar num novo projeto. Estava tudo meio tumultado, meio intenso.

 

Foi uma gravidez inesperada. E eu fiquei assustada. Não queria contar para as pessoas. Ao mesmo tempo, tinha um lado meu que estava muito feliz. Eu dei ao Rafa o presente que eu mais queria dar: um irmão. No caso, uma irmã.

 

Uma menina esperta, engraçada e barulhenta. O Rafa apelidou a irmã de “Bê” – uma abreviação da palavra “bebê”. Logo, estávamos todos em casa Bê pra lá, Bê pra cá.

 

A Bê encheu a nossa casa de alegria. E virou as nossas vidas de cabeça pra baixo.

 

 O primeiro ano dela não foi fácil para ninguém. Eu trabalhava muito e precisei da ajuda de uma babá para cuidar da minha filha. Minha rotina ficou dividida em períodos: às madrugadas, eu ficava acordada com a Bê. Até hoje, ela tem um sono difícil e quer mamar o tempo todo. Durante as manhãs, eu me dividia entre brincar com o Rafael e adiantar as tarefas domésticas. Às tardes e o início da noite, eram dedicados ao trabalho, assim como muitos finais de semana.

 

 

O que aconteceu é que essa rotina louca me afastou da minha família. Eu não conseguia dar atenção para ninguém direito. Nem cuidar de mim mesma. Tentar dar conta de tudo do meu jeito abalou a relação com o meu marido. E também com o meu filho mais velho. Eu deixei os dois de lado porque colocava a minha filha recém-nascida e o meu trabalho como prioridades.

 

Mas não valeu a pena. E eu decidi dar um tempo para rever as minhas escolhas – foi assim que surgiu o “Sabático de mãe”.

 

Hoje, acredito que um segundo filho tem que ser bem planejado entre o casal. Os dois precisam querer muito. Porque muda completamente a dinâmica familiar. Um filho dá trabalho e deixa as coisas mais agitadas. Mas dois... dois é uma treta grande.

 

É o dobro de tudo. O dobro de gastos com comida, saúde, escola, produtos de higiene e brinquedos. O dobro de preocupações e cuidados.

 

Percebo que os casais com um filho só conseguem conciliar melhor as tarefas domésticas com o trabalho e a família. Com dois, fica mais difícil. São duas crianças ávidas por carinho, atenção e acolhimento.

 

Muita gente me diz: “ah, mas um faz companhia para o outro!”. Nem sempre. Os dois querem e precisam da atenção individual dos pais.

 

Eles também não querem brincar juntos o tempo todo. E é óbvio que rola muita disputa.

 

O Rafael e a Bê disputam praticamente tudo: o nosso afeto, os brinquedos, as roupas, os canais da TV a cabo e até o canto preferido no sofá.

 

Sei que as tretas só estão começando. Ele está com quatro anos e ela com quase dois. Tem muita encrenca pela frente.

 

ENTÃO, SERÁ QUE VALE A PENA?

 

Eu pedi demissão de um emprego que eu gostava porque não dei conta, tenho que me dividir agora para cuidar de duas crianças pequenas, minhas contas dobraram e meu tempo diminuiu. SERÁ QUE VALE A PENA?

 

Posso dizer o seguinte: a vida surpreende a gente o tempo todo.

 

Um dia desses, num descuido nosso, a Bê escalou o cadeirão e caiu de cabeça no chão. Meu marido a levou às pressas para o pronto-socorro. Já era noite. Eu fiquei em casa com o Rafael. Ele estava desesperado. Chamava pela irmã e me falava: “eu quero a minha irmã de volta!”. Eu não consegui segurar as lágrimas. Choramos. Choramos juntos pela Bê.

 

Ela voltou algumas horas depois. Com um galo na cabeça e o sorriso largo e sapeca de sempre. Foi só um susto.

 

Naquela noite, eu rezei como há muito tempo não rezava. Pedi a todos os anjos e espíritos guardiões pela saúde e proteção da minha família. Agradeci por estarmos juntos, nós quatro.  Percebi o quanto um dependia do outro para estar bem. E o quanto eu amava aquela garotinha, apesar dela ter vindo depois dos meus meninos tão amados e queridos.

 

Sempre cabe mais um. Basta querer.

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