Sabático de mãe

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Desromantizar é preciso

E daí que eu cheguei aos 41 anos. Essa idade parecia distante para mim, quando eu tinha vinte e poucos, uma pele boa e muitos sonhos na cabeça. Estava aqui tentando me lembrar dos meus sonhos da juventude. E percebi que eram basicamente TRÊS!

 

Meu sonho número um:

 

Lembro que eu queria ser uma jornalista séria, que prezasse a ética, o bom exercício da profissão e a verdade.  Que ajudasse a acender uma luz na cabeça das pessoas, a despertar o senso crítico, a curiosidade. Consegui parcialmente. A visão que eu tinha da profissão era muito ingênua e romântica (a exemplo da grande maioria dos colegas).

 

Quebrei a cara muitas vezes.  Em outras tantas, me realizei.

 

Vamos ao sonho número dois:

 

Lembro que eu queria conhecer o mundo, outras culturas e idiomas. Consegui parcialmente. Estudei inglês e francês. Eu e meu marido economizamos bastante e viajamos para a França e a Holanda na nossa lua de mel e para os Estados Unidos antes das crianças nascerem. Mas não conheço nem um terço dos países que eu gostaria. E agora, com filhos pequenos, as coisas ficaram mais difíceis.

Mas minha missão como turista aventureira ainda não acabou. Repito isso como um mantra!

 

Meu terceiro sonho:

 

Lembro que eu queria casar com um cara legal, ter uma família e uma casinha linda. Consegui parcialmente. A casa ainda não rolou, moramos num “apertamento”- por todo lado que eu olho, tem um brinquedo ou um acessório de bebê que engoliu o nosso microespaço.

 

Ah, mas o marido e os filhos estão aqui comigo. E é o que realmente importa nesse sonho número três. Foi por eles que eu acabei deixando os sonhos número um e dois de lado, por um tempo.

 

Às vezes, a vida é assim. A gente precisa deixar alguns sonhos de lado para realizar outros que passam na nossa frente.

 

Tenho visto vários textos na internet de mães exaustas. Mulheres que se arrependeram de ter filhos por vários motivos: a perda do tempo que tinham para si mesmas, a falta de liberdade, as mudanças no corpo, as dificuldades em conciliar a carreira com a maternidade.

 

Renunciar aos sonhos é sempre difícil. Encarar uma nova vida também. Mas dá para pescar um peixe de cada vez, não é mesmo? E a maternidade é um peixe grande, que exige um pouco mais de paciência, força e uma dose extra de coragem.

 

Todo caminho tem rosas e espinhos.

 

 E até quando a gente coloca um sonho em prática, descobre que não é exatamente como a gente sonhou. O ego cria expectativas demais.

 

Por isso, hoje eu, que já fui tão romântica no passado, vejo que o importante mesmo é DESROMANTIZAR tudo:

DESROMANTIZAR OS SONHOS.

DESROMANTIZAR AS RELAÇÕES.

DESROMANTIZAR A MATERNIDADE.

 

Hoje eu me olho no espelho e não vejo mais a jornalista jovem e ambiciosa, louca para ganhar o mundo. Eu vejo uma mulher de quarenta, que virou mãe e dona de casa.

 

 MÃE E DONA DE CASA.

 

Algo que parecia improvável há alguns anos, quando eu olhava para a minha mãe, que foi “do lar” a vida inteira. Eu estufava o peito para dizer a ela: comigo vai ser diferente!

E em muitos aspectos, realmente foi. Minha mãe não teve muitas escolhas. Eu pude construir os meus sonhos, assim como várias mulheres da minha geração.

 

Muitas pessoas me criticaram por ficar em casa com os meus filhos. Na opinião delas, parecia uma renúncia a minha vida, aos meus desejos.Eu me sentia incomodada com os comentários. Mas as vozes da minha consciência eram as que mais me atormentavam. Essas vozes me diziam: vou ficar sem trabalhar, vou acabar com a minha carreira. Vou depender de marido. Vou deixar os meus sonhos de lado. Vou sumir.

 

Vejo que realmente perdi a conexão com muitas pessoas e coisas que eu gostava.

 

E ganhei tantas outras. Tantas.

              

A gente nunca deve viver a vida que querem para gente. Só que é difícil pacas assumir o que VOCÊ quer.

Eu quis ser mãe. Eu quis esse momento aqui, com os meus filhos. Eu gosto de ser dona de casa. 

 

E dane-se.  

 

Estou com o coração tranquilo. As vozes da minha consciência não me incomodam mais. Aprendi que “o nada é para sempre” é diretamente proporcional ao “viver o presente”.

 

Um dia de cada vez. Um sonho de cada vez.    

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