Todas as despedidas

 Tudo começou com um recado na agenda da escola. A professora pedia que eu preenchesse uma autorização para que o Rafael, meu filho mais velho, de quatro anos, participasse de um passeio ao aquário de São Paulo. Era a primeira excursão de escola do Rafa. Eu não pensei muito. Perguntei ao meu filho se ele gostaria de ir e ele disse que sim. Então, preenchi o papel, assinei e mandei o pagamento pelo passeio.

 

Dias depois, eu já tinha esquecido o assunto quando o grupo de whatsapp das mães da escola começou a apitar. As mães estavam preocupadas com a tal excursão. Falavam em sequestros, crianças perdidas seduzidas por estranhos, acidentes de trânsito envolvendo ônibus escolares. Muitas não queriam que os filhos fossem.

 

Eu fiquei em pânico. Afinal, como eu, jornalista-ex-editora-de-tragédias policiais e mãe neurótica não tinha pensado em NADA DISSO! Que tipo de mãe cabeça de vento desencanada joga seu bebê de quatro anos para passear num aquário cheio de tubarões?

 

Conversei com o meu parceiro e decidimos sondar na escola. A coordenadora nos tranquilizou. Disse que já tinham experiência nesse tipo de excursão, o ônibus tinha cintos de segurança, as professoras e os monitores do aquário estariam de olho nas crianças o tempo todo.

 

Por tudo isso, ficamos mais sossegados. Mas na véspera do passeio, eu não dormi. Meu coração estava apertado. Será que era hora mesmo de deixar o meu pitoco passear sem mim e o pai? Não era precipitado demais? Apesar das minhas dúvidas, mantivemos a decisão de deixar o Rafael ir ao passeio.

 

Eu o levei cedo à porta da escola e o ônibus da excursão já estava lá. O Rafa nem olhou pra trás. Saiu correndo para encontrar os amigos num ponto de encontro dentro do colégio. Eu e dezenas de outros pais e mães ficamos ali na rua, plantados na frente do ônibus, à espera da saída das crianças para o passeio. Parecia porta de estádio em dia de show ou jogo de futebol.

 

Logo, as crianças começaram a sair. Eu avistei o meu filho. Ele abriu um sorriso para mim e me deu um abraço. Depois, seguiu a fila para entrar no ônibus. Ele não estava com medo de ficar longe da mamãe. Meu menino estava sim era muito feliz.   

 

Assim que o ônibus saiu e nos despedimos das crianças, eu não consegui segurar as lágrimas. Entrei no carro chorando e segui o ônibus até ele dobrar duas esquinas adiante. Só então eu percebi o que tirou o meu sono. O meu maior medo não era o homem do saco ou o trânsito maluco de São Paulo. No fundo, eu sabia que era a despedida de uma fase. Meu filho não é mais um bebê. Ele cresceu. E eu preciso aceitar.

 

 

Quando se tem filhos, a vida passa em fast pelos nossos olhos. E a gente vive ritos de passagem constantes. É a despedida da barriga de grávida, a do primeiro ano do bebê, a da amamentação, dos anos na escola infantil. E assim, a gente vai se acostumando a dar lugar ao novo o tempo todo.

 

Aqui em casa, meus filhos precisaram de pijamas maiores. Os pijamas do inverno passado já não servem mais no Rafa e na minha caçula, a Clara, de dois anos e meio. Meus pequenos já usam os tamanhos 4 e 6. Saí de vez da ala de bebês das lojas de departamento e agora compro na de roupas para crianças pequenas.

 

A transitoriedade! Palavrinha difícil de falar e que não sai da minha cabeça esses dias. Eu sinto essa TRANSITORIEDADE o tempo todo! Ela está sempre comigo. Está nas roupas que deixam de servir, no desenvolvimento das crianças, nos dias que parecem um sopro.

 

Ah, o passeio no aquário foi ótimo! O Rafa chegou em casa animado e falante.

 

“-E aí, filho? Como foi?” 

“-Legal, mãe, mas eu queria que você estivesse lá comigo!”

 

Ufa! Ele ainda me quer por perto. Eita fase boa!

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Sabático de mãe

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