Sabático de mãe

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Mães e política

Sou mãe, jornalista e feminista. Os três substantivos que me definem existem graças às minhas escolhas. Escolhi a maternidade porque acredito na missão de criar seres humanos mais empáticos e amorosos. Já o jornalismo veio para mim como uma forma de denunciar as injustiças sociais e ajudar a informar as pessoas. E percebi a importância do feminismo depois do nascimento dos meus filhos.

 

Uma grande amiga me disse uma vez que não dá para sonhar em construir uma sociedade mais justa para os nossos pequenos enquanto existirem as diferenças de classe, de raça e de gênero. Foi quando me dei conta de como está tudo interligado. Se a gente quiser construir um futuro mais bonito para as crianças, precisamos combater a pobreza, o racismo e o machismo.

 

Mas estamos vivendo tempos difíceis, de muitas batalhas, ódios e preconceitos. Isso tudo me assusta.

Que mundo é esse onde meus filhos e outros pequenos brasileiros vão crescer? Será que vai acontecer o que eu menos queria: ver a história das gerações anteriores se repetir?

 

Eu nasci nos anos finais da ditadura militar. Cresci numa família de classe média baixa de São Paulo, numa época cheia de conservadorismo e convenções sociais. Lembro-me da abertura do regime, do Sarney no poder e daqueles tempos de inflação surreal.

 

Naquele período, muita gente, como hoje, já insistia em tratar os anos de chumbo como se fossem os anos de ouro. Quem nunca ouviu aquela frase: “Ah, mais na época dos militares era diferente!”. Para mim, esse pensamento caracteriza um saudosismo irreal e é repetido como mantra por quem desconhece a História do Brasil e do mundo.

 

Eu acho que as pessoas que dizem isso têm problema de memória e parecem ignorar todo o mal causado pela ditadura ao país. Como por exemplo, o aumento da dívida externa, da desigualdade social e da miséria. Além de todas as famílias destruídas pelo regime militar. 

 

Mães que tiveram os filhos torturados e mortos. Pais que foram torturados e mortos. Uma fase negra que deveria ser tratada como vergonha de uma nação e não relembrada como áurea. É só olhar para o exemplo da Alemanha. Os alemães, descontentes com a crise econômica e o desemprego depois da Primeira Guerra Mundial, abriram espaço para Hitler e o nazismo. Hoje, o nazismo é reconhecido como um dos maiores crimes da humanidade e os alemães fazem questão de mostrar aos filhos que ele não deve se repetir. A História deles é exposta em museus. A nossa está escondida nos livros que a maioria não lê.

O brasileiro médio não consegue ter empatia pelas vítimas da ditadura militar. Ou pelas pessoas que continuam na pobreza graças às décadas de exploração econômica. Não consegue se compadecer das injustiças sofridas pela mulher preta, pobre e mãe solteira de periferia.

 

Eu me pergunto o porquê de tanto desprezo pelo outro. Como vamos criar seres humanos melhores enquanto nosso pensamento não ultrapassar as barreiras do egoísmo e do individualismo? 
O que queremos para as nossas crianças? Será que ao invés de ensinar o amor vamos ensinar o preconceito? Será que ao invés de ensinar o pacifismo vamos mostrar como empunhar uma arma?

 

Tempos de polarização são muito perigosos. O desejo de provar que está certo se sobrepõe ao que é o correto. O que é do bem. Eu gostaria que meus filhos crescessem num momento histórico de união, justiça e igualdade.

 

Como eu disse no começo. Sou mãe, jornalista e feminista. E uma sonhadora.

 

 

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